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segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Estrela perigosa (Clarice Lispector)


Estrela perigosa
Rosto ao vento 
Marulho e silêncio 
leve porcelana 
templo submerso trigo e vinho
tristeza de coisa vivida 
árvores já floresceram 
o sal trazido pelo vento 
conhecimento por encantação 
esqueleto de idéias 
ora pro nobis 
Decompor a luz 
mistério de estrelas 
paixão pela exatidão 
caça aos vagalumes. 
Vagalume é como orvalho 
Diálogos que disfarçam conflitos por explodir 
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é. 

No obscuro erotismo de vida cheia 
nodosas raízes. 
Missa negra, feiticeiros. 
Na proximidade de fontes, 
lagos e cachoeiras 
braços e pernas e olhos, 
todos mortos se misturam e clamam por vida. 
Sinto a falta dele 
como se me faltasse um dente na frente: 
excrucitante. 
Que medo alegre, 
o de te esperar.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Os Teus Pés (Pablo Neruda)



Quando não te posso contemplar
Contemplo os teus pés.
Teus pés de osso arqueado,
Teus pequenos pés duros,
Eu sei que te sustentam
E que teu doce peso
Sobre eles se ergue.
Tua cintura e teus seios,
A duplicada purpura
Dos teus mamilos,
A caixa dos teus olhos
Que há pouco levantaram voo,
A larga boca de fruta,
Tua rubra cabeleira,
Pequena torre minha.
Mas se amo os teus pés
É só porque andaram
Sobre a terra e sobre
O vento e sobre a água,
Até me encontrarem.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A primeira vista (Chico César)



Nascido em 26 de janeiro de 1964, cantor, compositor, escritor e jornalista brasileiro. Chico César é um paraibano que dignifica os nordestinos. Como tantos outros talentos oriundos deste pedaço, maravilhoso, do Brasil, Chico César sabe transitar com maestria pelos labirintos poéticos. Em seu currículo pode-se notar belas interpretações, dentre tantas há de se destacar as seguintes canções: “Onde estará o meu amor”, “Últimas palavras do anjo diluidor”, “Mama África”, “Filme Triste” e a magistral “A Primeira Vista”.

A Primeira Vista

Composição: Chico César

Quando não tinha nada, eu quis
Quando tudo era ausência, esperei
Quando tive frio, tremi
Quando tive coragem, liguei...

Quando chegou carta, abri
Quando ouvi prince, dancei
Quando o olho brilhou, entendi
Quando criei asas, voei...

Quando me chamou, eu vim
Quando dei por mim, tava aqui
Quando lhe achei, me perdi
Quando vi você, me apaixonei...

Amarazáia zoê, záia, záia
A hin hingá do hanhan.....
Ohhh!
Amarazáia zoê, záia, záia
A hin hingá do hanhan.....

Quando não tinha nada, eu quis
Quando tudo era ausência, esperei
Quando tive frio, tremi
Quando tive coragem, liguei...

Quando chegou carta, abri
Quando ouvi Salif Keita, dancei
Quando o olho brilhou, entendi
Quando criei asas, voei...

Quando me chamou, eu vim
Quando dei por mim, tava aqui
Quando lhe achei, me perdi
Quando vi você, me apaixonei...

Amarazáia zoê, záia, záia
A hin hingá do hanhan...
Ohhhhh!
Amarazáia zoê, záia, záia
A hin hingá do hanhan.....

Quando me chamou, eu vim
Quando dei por mim, tava aqui
Quando lhe achei, me perdi
Quando vi você, me apaixonei...

Amarazáia zoê, záia, záia
A hin hingá do hanhan....

Ohhhhh!
Amarazáia zoê, záia, záia
A hin hingá do hanhan...(2x)

Ohhhhh!
Amarazáia zoê, záia, záia...




sábado, 14 de maio de 2011

Amigo aprendiz (Fernando Pessoa)



Quero ser teu amigo,

Nem demais e nem de menos…

Nem tão longe e nem tão perto.

Na medida mais precisa que eu puder.

Mas amar-te como próximo, sem medida…

E ficar sempre em tua vida.

Da maneira mais discreta que eu souber.

Sem tirar-te a liberdade.

Sem jamais te sufocar,

sem forçar a tua vontade.

Sem falar quando for a hora de calar

e sem calar quando for a hora de falar.

Nem ausente nem presente por demais…

Simplesmente, calmamente, ser-te paz.

É bonito ser amigo,

mas confesso: É tão difícil aprender…

Por isso, eu te peço paciência.

Vou encher este teu rosto

de alegrias, lembranças …

Dê-me tempo

de acertar nossas distâncias !


Fernando Pessoa

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Simplesmente João Cabral de Melo Neto

Como diz um velho adágio popular " uma andorinha só não pode fazer verão". João Cabral de Melo Neto é um dos melhores poeta de nossa literatura, para mim ele é o melhor, depois de Manoel Bandeira. Em "Tecendo o Amanhecer", notem a sutiliza e a leveza de seus versos. Com os novos tempos de enfrentamento do povo democrátco com os cerceadores da liberdade de imprensa este poema de João Cabral de Melo Neto se mostra mais atual do que nunca. Lembrem-se: Um galo sozinho não tece uma manhã... Ele precisará sempre de outros galos...



Tecendo o Amanhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

Os políticos são o espelho da sociedade.

      O nosso problema não está no fato de o país ser unitário ou federado, de ele ser república ou monarquia, de ele ser presidenciali...