"Sou um humanista. Isso não significa ser bonzinho ou acreditar que o homem é bonzão. Significa apenas que aceito o homem como é - medroso, primário, invejoso, incapaz, acertando por acaso e errando por vaidade: meu irmão." - Millôr Fernandes
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Cinco brasileiros que nos dão a esperança de um Brasil melhor.
Muitos se perguntarão, por que somente cinco? São apenas cinco exemplos, cidadãos modelos. Fosse eu elencar todos os cidadãos capazes no Brasil, chagaria a uma centena de nomes. Além de Jô Soares que fala por si só, os demais brasileiros da lista merecem ser destacados, o Brasil precisa conhecê-los.
FERRÉZ
Ferréz é o nome artístico de Reginaldo Ferreira da Silva, nascido em São Paulo, 1975. É um romancista, contista e poeta. Retrata em suas obras o cotidiano da periferia das grandes cidades. Denominada literatura marginal, pois, utiliza a linguagem dos “guetos brasileiros”, em especial a linguagem da periferia paulistana. Ferréz já publicou diversos livros, mas vale destacar Capão Pecado (2005), essa obra realmente vale a leitura. É fundador do 1DaSul, grupo dedicado a promover eventos culturais em Capão Redondo, ligado ao movimento Hip Hop. Grande exemplo para nossos jovens, rapaz humilde, é uma bela prova de que o Brasil tem futuro.
JOSÉ JUNIOR
José Junior (Afroraggae), Rio de Janeiro (1968). Cantor, Compositor e Escritor. Filho de taxista e assistente de enfermagem. Fundou o jornal Afro Reggae Notícias, antes da banda e da ONG. Trabalhou como promoter de festas. Em 2003 lançou o livro "Da favela para o mundo", Aeroplano Editora (com prefácio de Zuenir Ventura), biografia da banda Afroreggae e da ONG GCAR (Grupo Cultural AfroReggae), um dos projetos sociais de viés cultural mais bem-sucedido do país, com núcleos na favela de Vigário Geral, Morro do Cantagalo e em Parada de Lucas, além de atuação constante na Cidade de Deus. Coordenador Executivo do GCAR. Seu trabalho dispensa comentários, ele é a prova viva de que nas favelas não existe apenas violência, existem seres humanos a espera de uma oportunidade.
LEONARDO SAKAMOTO
Leonardo Sakamoto (São Paulo, 1977), jornalista e doutor em Ciência Política. Cobriu conflitos armados e o desrespeito aos direitos humanos em Timor Leste, Angola e no Paquistão. Já foi professor de jornalismo na USP e, hoje, ministra aulas na pós-graduação da PUC-SP. Trabalhou em diversos veículos de comunicação, cobrindo os problemas sociais brasileiros. É coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo. Com seu brilhante trabalho investigativo no combate ao trabalho escravo e na defesa das minorias, este jovem jornalista deve servir de referência para os demais colegas de profissão. Leonardo Sakamoto nos brinda com o exemplo, apesar de ideologias políticas, através do qual o jornalismo pode e deve ser pautado pela ética.
SONINHA FRANCINE
Sonia Francine Gaspar Marmo (São Paulo, 1967) é uma jornalista, apresentadora de televisão e política brasileira. Profissional capaz na área da comunicação, soninha é uma mulher batalhadora, daquelas que não fogem à luta. Muitos criticarão meus argumentos para qualificá-la como exemplo a ser seguido, pois, ela esteve envolta com dois temas polêmicos; o primeiro quando admitiu ter usado droga ilícita (sugerindo a descriminalização da maconha) e segundo ao admitir a prática de aborto na terceira gravidez. Justamente por estes exemplos eu a coloco entre os brasileiros que merecem ser seguidos. Dois temas que dispensam a hipocrisia e hipócrita ela não foi, por isso o motivo de sua menção.
JÔ SOARES
José Eugênio Soares (Rio de Janeiro, 1938), mais conhecido como Jô Soares, é um humorista, apresentador de televisão, escritor, artista plástico, dramaturgo, direto teatral, músico e ator brasileiro. O Jô dispensa comentários, o motivo de ele estar nesta lista é simples. Ele representa o que há de melhor na classe artística de nosso país. Por sua postura profissional este cidadão é um belo exemplo a ser seguido pelos novos talentos que estão desabrochando no cenário artístico brasileiro, pena que bons exemplos no Brasil, dificilmente são seguidos.
Querem barrar Monteiro Lobato em nossas escolas.
Recentemente o conselho nacional de educação publicou um parecer no diário oficial da união, nele o órgão sugere que o livro, “Caçadas de Pedrinho” (publicado em 1933), seja banido do currículo escolar brasileiro. A alegação é a seguinte; o livro possui um conteúdo fortemente racista. Sim, no livro há frases e passagens de conteúdo racista. Para os padrões de hoje pode-se afirmar até que o teor é extremamente racista.
Com o atual “politicamente correto” toda e qualquer frase na qual se tenha uma simples ilação à cor e raça pode ser qualificada como sendo racista e, portanto, abre-se uma janela para que seja toda a obra proibida. Esta política é perigosa, principalmente se levado em consideração o que aconteceu e acontece com outros povos que trilharam esse caminho. Um caminho no qual o povo se equilibra sobre o fio da navalha, uma linha muito tênue que não é salutar para o processo democrático, ainda incipiente em nosso país.
Mas Monteiro Lobato era racista e elitista como apregoam os historiadores? Pelos relatos da época, creio que sim. Em “O presidente Negro” ele expõe o que pensavam alguns pensadores do início de século. Há de se ressaltar que a grande maioria da população branca do Brasil também é racista. Se adotarmos o mesmo procedimento em relação a outros autores contemporâneos de Monteiro Lobato, haverá muitas proibições e nossos alunos terão seus direitos tolhidos, direito ao saber, direito de conhecerem um vasto universo literário. Sim, pois, todos nós temos esse direito. Precisamos conhecer para podermos ter o poder do discernimento.
Se o saudoso Mussum estivesse entre nós, talvez os guardiões do politicamente correto o proibissem de atuar ao lado de Didi, já que as brincadeiras em relação à cor de Mussum e à origem nordestina de Didi se sucediam, claro havia piadinhas em relação à condição sexual de Dedé, lembram-se. Passei a minha infância, adolescência e juventude apreciando as obras de Monteiro Lobato e me esbaldando com as peripécias dos Trapalhões. O mais engraçado de tudo isso é o fato de que eu não me tornei um racista preconceituoso. A própria bíblia seria barrada nas catequeses e escolas dominicais. Na bíblia a discriminação contra a mulher é gritante para os padrões atuais.
Não podemos medir o que foi escrito no passado pelo que é regra hoje, isso é impossível. É aconselhável a boa educação, de maneira apropriada, aos nossos jovens. O cerne da questão está na educação familiar, nos bons exemplos passados de pais para filhos. Com uma educação pautada no amor, carinho e respeito pelo próximo, nossos filhos e netos terão condições de diferenciar o certo do errado. Mas a escola tem a obrigação de mostrar-lhes o que há de melhor na literatura mundial.
O ministro Fernando Haddad, felizmente, determinou uma ampla discussão sobre o tema e sugeriu apenas um alerta sobre o conteúdo racista. Devo admitir que o ministro Fernando Haddad subiu uns pontinhos no conceito. Portanto, sem talibans em nossas vidas, big brother só na TV. Para quem ainda não leu Monteiro Lobato, fica uma sugestão para 2011 e tire suas próprias conclusões. Façamos como o ministro, chega de paranóia.
Com o atual “politicamente correto” toda e qualquer frase na qual se tenha uma simples ilação à cor e raça pode ser qualificada como sendo racista e, portanto, abre-se uma janela para que seja toda a obra proibida. Esta política é perigosa, principalmente se levado em consideração o que aconteceu e acontece com outros povos que trilharam esse caminho. Um caminho no qual o povo se equilibra sobre o fio da navalha, uma linha muito tênue que não é salutar para o processo democrático, ainda incipiente em nosso país.
Mas Monteiro Lobato era racista e elitista como apregoam os historiadores? Pelos relatos da época, creio que sim. Em “O presidente Negro” ele expõe o que pensavam alguns pensadores do início de século. Há de se ressaltar que a grande maioria da população branca do Brasil também é racista. Se adotarmos o mesmo procedimento em relação a outros autores contemporâneos de Monteiro Lobato, haverá muitas proibições e nossos alunos terão seus direitos tolhidos, direito ao saber, direito de conhecerem um vasto universo literário. Sim, pois, todos nós temos esse direito. Precisamos conhecer para podermos ter o poder do discernimento.
Se o saudoso Mussum estivesse entre nós, talvez os guardiões do politicamente correto o proibissem de atuar ao lado de Didi, já que as brincadeiras em relação à cor de Mussum e à origem nordestina de Didi se sucediam, claro havia piadinhas em relação à condição sexual de Dedé, lembram-se. Passei a minha infância, adolescência e juventude apreciando as obras de Monteiro Lobato e me esbaldando com as peripécias dos Trapalhões. O mais engraçado de tudo isso é o fato de que eu não me tornei um racista preconceituoso. A própria bíblia seria barrada nas catequeses e escolas dominicais. Na bíblia a discriminação contra a mulher é gritante para os padrões atuais.
Não podemos medir o que foi escrito no passado pelo que é regra hoje, isso é impossível. É aconselhável a boa educação, de maneira apropriada, aos nossos jovens. O cerne da questão está na educação familiar, nos bons exemplos passados de pais para filhos. Com uma educação pautada no amor, carinho e respeito pelo próximo, nossos filhos e netos terão condições de diferenciar o certo do errado. Mas a escola tem a obrigação de mostrar-lhes o que há de melhor na literatura mundial.
O ministro Fernando Haddad, felizmente, determinou uma ampla discussão sobre o tema e sugeriu apenas um alerta sobre o conteúdo racista. Devo admitir que o ministro Fernando Haddad subiu uns pontinhos no conceito. Portanto, sem talibans em nossas vidas, big brother só na TV. Para quem ainda não leu Monteiro Lobato, fica uma sugestão para 2011 e tire suas próprias conclusões. Façamos como o ministro, chega de paranóia.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Cesare Battisti, ativista político ou criminoso comum?
A polêmica em torno da extradição de Cesare Battisti gerou muito constrangimento para o governo brasileiro e agora o presidente Lula decidiu por não atender ao pedido da Itália e deixá-lo por aqui, no Brasil. Se foi uma decisão acertada ou não, bem, isso cabe somente ao presidente, esta decisão é de caráter ideológico.
Lula não precisava disso, mas ele se respaldou em um parecer do Advogado-Geral da União, ministro Luís Inácio Lucena Adams; “Conclui-se que há ponderáveis razões para se supor que o extraditando possa ser submetido a agravamento de sua situação pessoal. E que, se plausível a premissa, deve-se aplicar o tratado, no sentido de se negar a extradição, insista-se, por força de disposição do próprio tratado, que confere discricionariedade, ao Presidente da República, nos termos do já referido tratado”, palavras de Adams em seu parecer.
Baseado no parecer do ministro fica a impressão que na Itália ele não teria garantias a sua vida, garantias que devem ser inerentes a qualquer governo democrático. Com este parecer o atual governo equipara as instituições italianas às da Coréia do Norte, do Irã e de Cuba. É compreensível, pois, o nosso presidente já comparou um ativista cubano em greve de fome com criminosos comuns.
Como já explicitei antes, é uma questão ideológica e não há nada que desabone a decisão tomada por Lula, o que devemos lamentar são os argumentos utilizados para fundamentar a decisão. Um parecer primário e inconsistente. Seria melhor que Lula nos prestigiasse com uma parábola futebolística. Aos menos, seria bastante engraçado, o povo adora.
Bem, creio que todos sabem sobre o passado de Cesare Battisti, é um escritor italiano, antigo membro dos Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), grupo armado de extrema esquerda, ativo na Itália no fim dos anos 1970 – os chamados anos de chumbo – período marcado por ataques terroristas de organizações da extrema esquerda e da extrema direita. Em 1987, Battisti foi condenado pela justiça italiana à prisão perpétua, com privação de luz solar, pela autoria direta ou indireta dos quatro homicídios atribuídos aos PAC – além de assaltos e outros delitos menores, igualmente atribuídos ao grupo. O governo italiano considera Cesare Battisti um ex-terrorista. No entanto, Battisti se diz inocente.
Diferentemente do que acontece aqui no Brasil, lá na Itália não houve a anistia política. A anistia política ocorrida no Brasil, para quem não sabe, foi um processo no qual todos os crimes, ocorridos sob a alegação de estarem defendendo causas políticas e ideológicas, foram perdoados. O perdão coube aos dois lados, os militares e os guerrilheiros. A indulgência, no caso brasileiro, caiu sobre todos os crimes cometidos, não diferenciando os níveis; sequestro, roubo, assassinato e a tão famosa tortura. No Brasil há ex-terroristas na atual administração e muita gente que pertenceu a ditadura militar também. Na Itália não ocorreu o mesmo. Por lá, ainda, crime é crime e não importam os meios que justificassem a sua execução.
Portanto, para o governo petista, Cesare battisti é um perseguido político e para os italianos e parentes das vítimas trata-se de um criminoso comum. Está claro e transparente como água, que Lula tem a prerrogativa de conceder ao italiano a guarida brasileira, este é um direito que lhe assiste e ninguém deve recriminá-lo. Mas eu gostaria de ver o mesmo ímpeto no episódio em que os cubanos foram caçados pela polícia federal e deportados para Cuba novamente, lembram-se? Será que Lula se preocuparia tanto com a integridade física, psicológica e moral de Battisti se ele fosse um cubano em terras brasileiras? Fica esta pergunta para refletirmos.
Lula não precisava disso, mas ele se respaldou em um parecer do Advogado-Geral da União, ministro Luís Inácio Lucena Adams; “Conclui-se que há ponderáveis razões para se supor que o extraditando possa ser submetido a agravamento de sua situação pessoal. E que, se plausível a premissa, deve-se aplicar o tratado, no sentido de se negar a extradição, insista-se, por força de disposição do próprio tratado, que confere discricionariedade, ao Presidente da República, nos termos do já referido tratado”, palavras de Adams em seu parecer.
Baseado no parecer do ministro fica a impressão que na Itália ele não teria garantias a sua vida, garantias que devem ser inerentes a qualquer governo democrático. Com este parecer o atual governo equipara as instituições italianas às da Coréia do Norte, do Irã e de Cuba. É compreensível, pois, o nosso presidente já comparou um ativista cubano em greve de fome com criminosos comuns.
Como já explicitei antes, é uma questão ideológica e não há nada que desabone a decisão tomada por Lula, o que devemos lamentar são os argumentos utilizados para fundamentar a decisão. Um parecer primário e inconsistente. Seria melhor que Lula nos prestigiasse com uma parábola futebolística. Aos menos, seria bastante engraçado, o povo adora.
Bem, creio que todos sabem sobre o passado de Cesare Battisti, é um escritor italiano, antigo membro dos Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), grupo armado de extrema esquerda, ativo na Itália no fim dos anos 1970 – os chamados anos de chumbo – período marcado por ataques terroristas de organizações da extrema esquerda e da extrema direita. Em 1987, Battisti foi condenado pela justiça italiana à prisão perpétua, com privação de luz solar, pela autoria direta ou indireta dos quatro homicídios atribuídos aos PAC – além de assaltos e outros delitos menores, igualmente atribuídos ao grupo. O governo italiano considera Cesare Battisti um ex-terrorista. No entanto, Battisti se diz inocente.
Diferentemente do que acontece aqui no Brasil, lá na Itália não houve a anistia política. A anistia política ocorrida no Brasil, para quem não sabe, foi um processo no qual todos os crimes, ocorridos sob a alegação de estarem defendendo causas políticas e ideológicas, foram perdoados. O perdão coube aos dois lados, os militares e os guerrilheiros. A indulgência, no caso brasileiro, caiu sobre todos os crimes cometidos, não diferenciando os níveis; sequestro, roubo, assassinato e a tão famosa tortura. No Brasil há ex-terroristas na atual administração e muita gente que pertenceu a ditadura militar também. Na Itália não ocorreu o mesmo. Por lá, ainda, crime é crime e não importam os meios que justificassem a sua execução.
Portanto, para o governo petista, Cesare battisti é um perseguido político e para os italianos e parentes das vítimas trata-se de um criminoso comum. Está claro e transparente como água, que Lula tem a prerrogativa de conceder ao italiano a guarida brasileira, este é um direito que lhe assiste e ninguém deve recriminá-lo. Mas eu gostaria de ver o mesmo ímpeto no episódio em que os cubanos foram caçados pela polícia federal e deportados para Cuba novamente, lembram-se? Será que Lula se preocuparia tanto com a integridade física, psicológica e moral de Battisti se ele fosse um cubano em terras brasileiras? Fica esta pergunta para refletirmos.
sábado, 25 de dezembro de 2010
São Paulo das enchentes.
São Paulo da garoa. Acho que todos já ouviram esta frase. Esta magnífica cidade ficou famosa com ela. Antigamente éramos lembrados como o povo da cidade da garoa. Hoje a situação é bem outra. São Paulo a terra das enchentes. É lamentável, mas somos conhecidos como o povo que vive com enchentes infindáveis. Todos os anos o caos paulistano se repete. O verão em São Paulo é sinal de enchentes, sofrimento e transtornos para toda a população.
A localização da cidade de São Paulo e também da região metropolitana é ideal para que haja enchentes. Mas as fortes chuvas e a localização dos municípios não justificam o sofrimento do povo. Os principais problemas que causam as enchentes (além das chuvas, é claro) resumem-se a dois: As opções erradas dos políticos e a má educação do povo.
São Paulo uma cidade que cresceu sem planejamento. Com um crescimento desordenado e políticas equivocadas em relação às leis de zoneamento, nossa cidade e região atingiram o estado de calamidade em que nos encontramos atualmente. Poucos governantes foram sensíveis nessa área. Paulo Maluf com todos os seus defeitos foi ao lado do saudoso Mário Covas um dos poucos que realmente tentaram resolver essa questão.
Querendo ou não, as obras realizadas no rio Tamanduateí resolveram a situação das regiões vizinhas. Mas, casos à parte, é bem mais rentável para um prefeito gastar milhões com pontes e viadutos, CEUS, obras que lhe dão um ótimo retorno eleitoral do que enterrar milhões de reais canalizando rios e com obras extremamente necessárias como o desassoreamento de rios e córregos. Sim, rios e córregos têm de ser limpos e rebaixados.
Há locais em que não se pode permitir a ocupação, mas isso subtrai muitos votos, é melhor não mexer. Picuinhas políticas fizeram da grande São Paulo o que vemos hoje, se um político começa uma obra o outro não dá seguimento. Prefeitos que fogem as suas atribuições, um caso emblemático e o do metrô de São Paulo, não havia a necessidade de o senhor Gilberto Kassab destinar hum bilhão de reais para estas obras. Talvez se tivesse ele investido em pontos onde ocorrem alagamentos fosse melhor para o povo. Pois, todos nós sabemos onde é que alaga, não há segredos, as enchentes ocorrem sempre nos mesmos pontos da cidade. É uma questão de administração, uma questão de prioridades.
Mas podemos culpar somente os políticos? Claro que não. Todos somos culpados, cada cidadão tem a sua parte de responsabilidade em relação ao que acontece com a cidade. O lixo jogado nas ruas, em terrenos baldios e especialmente nos rios e córregos é um dos principais fatores que causam as enchentes. Cada papel de bala jogado nas ruas volta para você. A má educação do paulistano e do paulista é um dos principais fatores que causam enchentes na bela e maltratada São Paulo. Por favor, não vamos culpar somente os nordestinos e os pobres. Muita gente rica e bem-instruída polui a cidade também. Portanto é dever do estado e do povo também, zelar pelo bem de São Paulo. A responsabilidade é de todos nós. Vamos cuidar melhor da cidade.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
A Vidraça (Texto de Autor Desconhecido)
Um casal, recém-casado, mudou-se para um bairro muito tranqüilo.
Na primeira manhã que passavam na casa, enquanto tomavam café, a mulher reparou através da janela em uma vizinha que pendurava lençóis no varal e comentou com o marido:
- Que lençóis sujos ela está pendurando no varal!
- Está precisando de um sabão novo.
Se eu tivesse intimidade perguntaria se ela quer que eu a ensine a lavar as roupas!
O marido observou calado.
Alguns dias depois, novamente, durante o café da manhã, a vizinha pendurava lençóis no varal e a mulher comentou com o marido:
- Nossa vizinha continua pendurando os lençóis sujos!
Se eu tivesse intimidade perguntaria se ela quer que eu a ensine a lavar as roupas!
E assim, a cada dois ou três dias, a mulher repetia seu discurso, enquanto a vizinha pendurava suas roupas no varal.
Passado um mês a mulher se surpreendeu ao ver os lençóis muito brancos sendo estendidos, e empolgada foi dizer ao marido:
- Veja, ela aprendeu a lavar as roupas, Será que a outra vizinha ensinou??? Porque eu não fiz nada.
O marido calmamente respondeu:
- Não, hoje eu levantei mais cedo e lavei os vidros da nossa janela!
E assim é.
Tudo depende da janela, através da qual observamos os fatos.
Antes de criticar, verifique se você fez alguma coisa para contribuir;
verifique seus próprios defeitos e limitações.
Devemos olhar, antes de tudo, para nossa própria casa, para dentro de nós mesmos.
Só assim poderemos ter real noção do real valor de nossos amigos.
Lave sua vidraça.
Abra sua janela.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
O DEFUNTO (Thomaz Lopes)
Quando ele despertou, deitado ao comprido num estreito caixão negro e dourado, tinha as mãos postas numa derradeira prece. Lançou vagamente os olhos em torno, e em torno tudo era silêncio e treva. Procurou levar as mãos aos olhos, mas sentiu as mãos presas, sem movimento; e parece-lhe então que estava morto.
Como é pesado o ar que respira! Como é profunda a escuridão que o encerra! E onde está? No seu quarto? No seu leito? Que estranha cama, estreita e dura! E por que dorme calçado? E que vestes tão solenes! Terá vindo ébrio de alguma festa? E as mãos amarradas! E que falta de ar! Ah! que dolorosa e lenta agonia
De novo distendeu os braços; mas a fita que os unia partiu-se, e as mãos geladas bateram de encontro às tábuas. Passou os frios dedos pelo rosto e retirou-os espantado, sentindo a face morta como a de um cadáver. Veio-lhe à memória uma vaga lembrança de moléstia e de perda de sentidos.
E sentiu sobre si uma tampa, uma tampa de caixão, de caixão de defunto!
Um medo contínuo de si próprio, um indefinível asco do "cadáver" que sente a seu lado, assoberba-o. Rebenta o caixão, levanta-se, quer correr, mas bate de encontro a uma parede, uma fria e cinzenta parede de mármore. Rápida e rija vem-lhe a certeza de estar enterrado vivo, prisioneiro da morte, atirado num calabouço. No silêncio e na treva, entre a loucura e a morte, dá dois passos, mas tropeça. Que será?
E como seus pés tateassem na sombra, encontraram um degrau que subiram; depois, outro mais outros, outros ainda. Oh! que sepultura profunda! Erguendo as mãos para o céu que está tão longe dos abismos, sentiu nas mãos a fria laje do teto.
- Em vão tenta erguê-la. Respira a longos haustos por uma fresta aberta na pedra. Um novo esforço para erguê-la: em vão! - Uma sepultura de mármore, como que para guardar o corpo aos vermes e ao pó; uma fresta por onde apenas entra o ar que prolonga a vida ao condenado; uma escada que os passos sobem e inutilmente descem; uma laje que se levanta para enterrar os mortos e que se não ergue para salvar os vivos; - oh! essa sepultura é com certeza uma sepultura de igreja
E novamente luta para erguer a pedra, mas com o esforço inútil, vem o cansaço, vem o abatimento, vem o desânimo. Então como o inconsciente ou o muito atilado, que vendo abertos os braços lívidos da Morte, em vez de fugir, aos braços se atira, ele resignadamente desce. Ao descer alucinado e cego, bate com o corpo no mármore da parede, e grita. A sua voz sobe e desce, abafada como o eco de um trovão distante encerrado' numa gruta profunda. Agora, sereno e calmo, como quem leva um sol apagado no coração e uma estrela sem luz em cada olhar, sobe de novo os degraus da Vida e da Morte. Nos primeiros momentos, com a calma e serenidade com que subira, junto ao intento a sua força, mas a pedra permanece impassível. A angústia do sofrimento prolongado destrói-lhe o sossego da ação; com um doloroso esforço, ingurgitadas as veias, os músculos retesados na onipotência da sua própria força, os olhos saltando das órbitas, procura num ansiado desespero levantar a pedra que talvez para sempre o encerra. Trabalho inútil! Parece que o pranto preso na garganta vai sufocá-lo, - e sente uma a uma ensangüentarem-se, dilacerarem-se, largarem-lhe da carne as unhas. Impossível!
Exausto de fadiga e dor, deixa-se abater, e o seu corpo doente, rolando de degrau em degrau como um fardo sinistro, vai parar ao pé da parede cinzenta e fria..
Veio o sono. Veio seguindo a nébula do sono a doida fantasia do sonho.
Era vago e tênue. Mas porque tão vago fosse e tão tênue, quase sem torturas, o Espírito-Zombeteiro dos Sonhos fê-lo aclarar-se, - assim como uma cidade que despe aos primeiros raios de sol a túnica de névoas em manhãs de frio.
Vai-se largamente o sonho dilatando, mas sempre duvidoso e cinzento.
Era uma noite profunda, iluminada de estrelas. O céu muito alto era como um imenso veludo macio. - E o céu alto e a noite profunda cobriam e envolviam uma cidade estranha mas que lhe não era de todo desconhecida. Havia velhos lugares que amava e, pelos sítios conhecidos, - nem viv'alma! Apenas sombras. Caminhava e, quando era a grande fadiga e o repouso que lhe abria os braços amigos, outros braços mais fortes o impeliam e uma sinistra voz bradava: - Marcha! Marcha! - As pernas pesavam, se entorpeciam; desejos protetores de descanso inundavam-lhe o lasso corpo. À proporção que atravessava caminhos, os caminhos mudavam: eram jardins floridos e perfumados, prados extensos, longas campinas, casarios que fugiam na sombra; outras vezes, charnecas adustas e ressequidas, betesgas exalando podridão. Passou por cemitérios e à sua passagem os defuntos erguiam-se, cobertos de pó e de segredo, acompanhando-o fantasticamente por dilatados e dolorosos momentos. As árvores tomavam assombradoras formas de avejões e as estrelas, apagando-se no céu, deixavam o céu cinzento e frio como o mármore da sua sepultura tão fria e tão cinzenta. E, entretanto, no silêncio, na noite e na treva - o defunto caminhava.
De súbito, como aos olhos tontos e averiguadores do náufrago, aparece a orla branca de uma praia distante, no seu espírito cansado nasceu uma idéia feliz: aquela noite de loucura e de assombramento marcava o aniversário de sua Noiva e por data essa tão formosa haveria uma formosa festa. Devia ser tarde; ansiavam por ele. - Com uma força nova, um grande desejo de ver, de ouvir, de sentir, de querer, de palpitar, de amar e de viver banhou-lhe a alma numa cariciosa sensação de vida. Apressou o passo, correu. Mas, voltando-se para trás, julgou ver na sombra uma sombra que resvalava. Levantaram-se-lhe os cabelos, um calafrio de medo correu-lhe o corpo de alto a baixo - e partiu, assombrado, numa carreira mal segura, de perseguido. Batendo com os pés no solo, todo o solo ressoava ao contacto, como se os pés fossem de aço. Depois, com surpresa, sentiu-se leve; houve um suspiro de prazer e de alivio e, flutuando no espaço, começou a voar. Subiu; rompeu a camada cinzenta do céu e o céu tornou-se inteiramente negro. Como subisse mais alto, seus olhos extasiaram-se diante do azul, um azul, tão límpido e transparente como até hoje olhos humanos não sonharam. No alto, imensamente longe, brilhavam as estrelas no glorioso esplendor de uma imortal claridade. Muito embaixo, perto da Terra, desaparecia a Lua amorável dos poetas. Os seus olhos humanos quase cegaram fitando Sírius. - Entre as estrelas abriu-se o céu e aqueles mesmos deslumbrados olhos viram sobre os sóis o suave Jesus dos Humildes. Perto de Cristo apareceram duas sombras que se foram corporificando e nas quais o Defunto se reconheceu, a si e a sua Noiva! Ela! Mas como, se "ele" ali estava oculto contemplando a felicidade do outro "ele"! Jesus sorriu. Jesus os abençoou. E eles voaram. Ah! se ele pudesse, também seguir-lhes o vôo!... Quando quis voar, as asas se lhe desfizeram e ele caiu, rolou, precipitou-se, tocou a terra - e partiu novamente, correndo pelas estradas solitárias e ermas. Voltando o rosto viu outra vez, na treva, o mesmo vulto que o acompanhara; dominado pelo medo, correu mais, até que, numa curva do caminho, espessa sebe lhe tomou o passo. Retrocedeu, passou, assombrado, pelo vulto, que lhe estendeu os braços, e na mesma carreira fantástica, atravessou planícies, estepes nuas, estradas mortas, frias e cinzentas. Lamentou a perda das suas asas felizes e lembrou-se da sombra que não o deixava. Mas, se ele estava morto, por que o perseguiam? Cada vez mais o vulto avançava e era tão longe a casa de sua Noiva! O vulto já ia tocá-lo... - Mas ele era cadáver e na sua qualidade de morto, devia amedrontar os vivos... Voltou-se, mas quem quer que era riu-lhe diante da medrosa face. Mais intenso foi então o pavor de si mesmo e da sombra que devia ser a sua alma... E ela vinha resvalando na sombra, acompanhando-o... Estava perdido! Já não tinha mais forças! Coragem! Uma luz brilhou ao longe; oh! que deliciosa alegria ! Era a casa de sua Noiva! Mais um passo! Avante! O alguém seguia-o, quase alcançando-o; mas estava salvo! Era a casa dela, era o som da orquestra, era a luz intensa, era a salvação! Um pouco de ânimo - coragem! E antes de bater com o corpo nas lajes cinzentas e frias da sepultura, pareceu que o vulto perseguidor lhe abriu os braços. E também pareceu que eram os braços regelados da Morte...
Um raio de sol, fino e tênue, atravessava a fresta aberta na pedra.
* * *
Despertou suado, ardendo em febre. Pelo seu rosto lívido andava, molemente, uma larva. Quis gritar, mas só lhe saiu da boca um grunhido surdo que o apavorou. Abriu os braços para certificar-se da vida e na treva os braços bateram contra a parede.
Pensou, então, no seu sonho - e tristemente verificou que era, em verdade, por aqueles dias, o aniversário de sua Noiva. Que data era a de sua morte? Quem sabe se não era mesmo aquele o dia festivo! Todo o passado irrompeu, tumultuando, da sombra e ele reviu as longas horas de contemplação ou de melancolia em que todo o seu ser era um crente adorando a um ídolo. E outra vez, de repente, voltou a encarar a sua situação de morto.
Longas horas passaram; desaparecera o raio de sol; e um sino tangia ao longe, fúnebre e evocativo, os dobres que deviam ser os da Ave-Maria. O som do triste bronze, chegando a seus ouvidos, falava na vida e na liberdade A liberdade! A delícia infinita! Ah! como era doloroso morrer assim, solitário, consciente, indefeso, abandonado, sem o prazer da luta, sem o esforço da salvação! E por que o enterraram vivo? Mil vezes amaldiçoou a estupidez criminosa que o atirara à morte! Os soluços e as lágrimas rebentaram e sofrendo sem termo, e chorando sem esperança adormeceu, sem sentidos, esperando pela Morte...
* * *
Ao despertar, na manhã do outro dia, viu a fita do sol - único que lhe levava à cova a carícia de uma visita.
Admirando-se de ainda estar enterrado, quis levantar-se e sentiu que desmaiava. Tinha uma fome devoradora e uma sede que o requeimava. Ah! quarenta e oito longas, intermináveis horas sem comer, sem beber! Sem beber! Sentia o estômago vazio e gelado e a língua, ressequida, estalava. De novo quis levantar-se e de novo ficou. O dia inteiro - longo como um deserto; a noite inteira - vazia como o silêncio, ele passou, ora em profunda sonolência, ora acordado, com a ânsia estranguladora de comer e de beber
Outra vez o sol que devia ser o dia, outra vez a manhã que devia ser a vida!
O enterrado ouviu a seus pés um guincho fino; os olhos tiveram um rápido brilho de prazer e, estendendo as mãos crispadas, apanhou um rato, vivo e mole. Abrindo os lábios num sorriso que devia ser de imbecilidade, bestializado e faminto, levou o rato à boca, frio, áspero, nojento, estrebuchando e guinchando entre os dentes. Oh! mas a sede! A sede que aquela carne repulsiva aumentara ! A fome que ela fizera crescer ! - E então, num esforço hercúleo, ergueu-se; olhou a treva um instante, com um olhar profundo, calmo, parado. De repente, soltando um uivo de fera enjaulada, rasgou as roupas, dilacerou-as - e, nu, selvagem, rugindo e chorando de desespero, retalhou com os dentes a carne branca dos seus braços. O sangue brotava em ondas rubras que espumavam e ele o sorvia, atirando a cabeça de um lado para o outro, aparando-o para não perder uma gota chupando aquele sangue que corria quente espesso, vivo, garganta abaixo, descendo para o estômago crispado pela fome.
Um rugido mais rouco, dois saltos contra a parede onde repartiu a cabeça, de onde brotou mais sangue que lhe envolveu o rosto numa máscara vermelha. Enlouquecera.
Outra vez, pela última vez, subiu as escadas. Ajoelhou-se, rilhou os dentes, entrelaçou os dedos sobre as mãos, numa prece maldita - e ficou morto, imóvel, rígido e nu, coberto de sangue escarlate, como o mármore cinzento e frio da sua sepultura...
Fonte: Biblioteca Virtual - Literatura
domingo, 19 de dezembro de 2010
COMO NASCEU, VIVEU E MORREU A MINHA INSPIRAÇÂO (Raul Pompéia)
Página arrancada ao livro de lembranças de um futuro Esculápio.
Eu ia vê-la naquele dia. O dia dos seus anos! Devia estar esplendida. Ia completar o seu décimo sétimo ano de um viver de alegrias. O meu presente era simples: uma gravatinha de fita azul; mas havia de agradar-lhe. Era o meu coração quem o dava. Ela o sabia. Sabia também que o coração de um estudante não é rico. Dá pouco, mesmo quando dá... Ela desculparia.
Que noite ia eu passar! Dançaríamos muitas vezes juntos, a começar da segunda quadrilha...
Preparei-me. Empomadei-me; escovei-me; perfumei-me; mirei-me, etc., etc. Conclusão: estava chic. Mas eram cinco horas e eu não queria chegar antes das sete. Fazer-me um pouco desejado... o que é que tem?... Todavia faltava bastante tempo!... Em que ocupar-me a fim de passar essas duas longuíssimas horas? Que fazer?... Impaciência e dúvida; dois tormentos a me angustiarem...
Eu passeava pelo meu quarto, deitando vagamente uns olhares pelos meus desconjuntados móveis: aquelas minhas cadeiras, lembrando a careta de um choramigas a entortar o queixo; a mesa, gemendo sob um mundo de livros desencapados e sebentos; o meu toilette, quero dizer um velho compêndio de anatomia com uns frascos por cima e um espelho pequeno pregado na parede; a minha cama, com a coberta a escorregar languidamente para, o chão... Continuava a passear. Olhei ainda uma vez para o espelho e sorri-me, vendo lá dentro a minha gentil figura partida em quatro por duas rachaduras cruzadas no vidro... Que fazer?...
Debrucei-me na janela... Embaixo a rua, a atividade prosaica das cidades de alguma importância: idas e vindas e mais vindas do que idas, por causa da hora que era de jantar, (por tocar nisto... Eu não tinha ainda jantado. É o que me cumpria fazer; mas o meu plano era economizar um jantar, vingando-me à noite nos buffetes da menina...) Meus olhos corriam pela rua como andorinhas brincalhonas. Depois de percorrem o quarto, andavam pela rua em busca de resposta à minha pergunta: - que fazer?...
Por fim foram esbarrar no frontispício da igreja de... Começaram a subir... Brincaram nas janelas; contaram quantos vidros havia; examinaram os enfeites de arquitetura... Subiram mais, percorreram os sinos, o zimbório e foram pousar no pára-raios.
Estavam quase no céu. Daqui para ali, menos de um passo. Os olhos lá foram. Mergulharam-se erradios no azul... Que fazer?
Ora... enfim! Estava achada a resposta! Por que não veio ela mais cedo não o posso explicar.
Os meus olhos estavam no céu.
Era por uma tarde encantadora. Que cor a do firmamento nessa hora! Que abóbada incomparável a cobrir a rua!... Depois, aquelas nuvens mimosas, desfiando-se nos ares, como brancas meadas de lá nuns dedos sedutores... O sol a descambar, batendo de través na poeira levantada do chão pelos carros, que magníficas cortinas desdobravam pelas janelas das habitações velando-as como que de douradas gazes. No horizonte, por sobre a última linha de telhados e chaminés fumegantes, como se ostentavam aquelas colinas de um azulado branco feitas vapores tênues; como se recortavam sem fazer uma só volta que não fosse demorada e graciosa como as curvas de esbelto corpozinho de donzela...
Oh! Do quarto para fora, tudo o que se prendia aos céus por um raio de luz ou por uma ponta de vaporoso véu, tudo respirava poesia...
Eu achara a resposta. Que fazer?... Versos!... Feliz achado!... Um soneto ou alguns alexandrinos... qualquer cousa que desse claro testemunho do meu amor. O laço de fita com que eu ia mimosear o meu anjo era azul... Ótimo! Sobre o laço, um soneto!... Ouro sobre azul! Com certeza não dançaríamos somente (eu e ela) trocaríamos o primeiro beijo! Não esse beijo insípido que se dá a carregar aos zéfiros, entregando-se-lhes nas pontas dos dedos, mas um ósculo açucarado de lábios ardentes sobre a macieza de uma face. Um ideal realizado. Uma cousa assim como o contato com um jambo que houvesse roubado o veludo ao pêssego...
- Bravo! Já estou quase deitando verso de improviso! exclamei eu, notando a minha exaltação. Venha papel! venha pena! Cérebro, soma-te com o teu companheiro, o coração! Não brigueis desta vez como é de vosso costume... somai-vos um com o outro e vertei nesta folha de papel alguma cousa que não horrorize a Petrarca... Espírito de Dante, eu te evoco! vem com aquele fogo que em ti acendia a tua celeste Beatriz! Dirceu, corre também em meu socorro! Poetas antigos e modernos, correi todos! Musas, vinde com eles! Transportai-me nesses êxtases que vos deram a imortalidade na memória dos homens!...
Nascera-me a inspiração! Ia metrificar alguma cousa que devia maravilhar os críticos... (aparte a modéstia: isto que escrevo não é para o público). Mas eu me sentia um pouco acima de mim mesmo... Sem dúvida era essa sensação mística a que experimentam todas essas cabeças de gênio, um momento antes de dar à luz qualquer produção sublime...
Molhei a pena, com um movimento nervoso. A minha impaciência (confesso-o) não era então para chegar à casa do meu bem, era para gravar no papel aquilo que me ardia no crânio. Molhei a pena...
Oh! desgraça! A infame pena trouxe na ponta um pingo de tinta, trêmulo, ameaçador. Desviei-a violentamente... foi a minha perdição...
Olhei triste para o meu punho esquerdo... Estava descansado sobre a folha de papel, quando o pingo... Maldição!... Ainda havia pouco, tão alvo, luzidio como porcelana... então, com uma feia nódoa circular negra... negra, de quase uma polegada de diâmetro e ainda a infiltrar-se pelo linho, a tomar cada vez mais vulto!...
Pobre camisa!... estragada!... Mais pobre de mim... Esse pingo era uma catástrofe. Aquela camisa era a única. Única! Triste verdade, cujas conseqüências me desesperavam.
- Adeus, meu anjo! disse eu, sem poder engolir um soluço.
Já não me era possível ir vê-la. Nem um companheiro morava comigo. Se morasse, talvez o mal fosse remediável. Mas não! Não havia esperança!... Comprar outra? Onde? Era um domingo... Com que dinheiro?... Era num fim de mês. Não havia esperança.
Aquele beijo que sonhei num instante de ebriedade desfez-se-me no espírito como a má impressão de um R. Não era só isto. A minha ausência seria notada pela menina. O que pensaria ela?... Talvez que eu, por mesquinho, quis poupar-me a despesa de oferecer-lhe qualquer cousa...
- Quando, gritei eu, aí está o meu laço de fita de cinco mil réis...
Ainda mais. Um baile leva a uma casa tantos pelintras... quem sabe se ela não se agradaria de algum desses bolas, esquecendo-se de mim?... E teria razão. A abelha, se aqui não encontra mel, vai buscá-lo acolá...
Momentos dolorosos os que passei nessa tarde! Depois de todos os pensamentos que me assaltaram brutalmente à primeira reflexão, foi que lembrei-me do meu soneto...
- Soneto para onde tu foste?...
Mais este golpe: - a minha inspiração morrera. Eu não sentia mais a exaltação auspiciosa de alguns minutos antes. Tudo perdido! Fora-se tudo!
Eu vi e jurá-lo-ei, se me não acreditarem, eu vi essa corja do Parnaso, poetas e Musas, fugir-me do quarto! Eu vi as sirigaitas de saias arregaçadas a correr, e os idiotas irem-lhe após, sobraçando liras, como os traquinas das escolas públicas, quando disparam pelas ruas, de ardósia ao sovaco...
Nessa mesma tarde, fui à janela outra vez. Estava aflito e superexcitado. Parece-me, até, que tinha os olhos molhados. Pus-me a ver os transeuntes. Cada um que passava, para os lados na morada do objeto dos meus devaneios parecia um convidado de baile. Tortura.
Em seguida avistei a maldita torre, por onde meus olhos haviam subido ao céu que me inspirava a negregada lembrança de poetar.
Para acabar. A desgraça de que fora vítima fez-me esquecer o jantar, que positivamente era só o que eu devia perder não indo à festa. Não comi e não reparei nisso. Tornou-se inútil vingar-me da minha economia. Se neste particular não perdi, no resto ganhei.
A minha querida (soube-o depois) nem perguntou por mim na festa. Esteve alegre. Encontrou quem lhe agradasse (um sujeitinho com quem se vai casar). Melhor. Já estou consolado da desgraça, um mal que me veio para bem. Livrou-me de uma levianazinha. O aborrecimento que hoje me causam os mesmos objetos que tanto me entusiasmaram naquela tarde veio matar umas pequenas veleidades poéticas que ainda acatava. Estou descrente. Agora acabou-se... Só estudo; ergo: ganhei... Estou na expectativa de um fim de ano esplêndido.
Mais uma palavra. O laço de fita azul... guardo-o. É um talismã.
A Comédia. São Paulo, n.0 28 e 29, 4 e 5 abr. 1881.
Fonte: Biblioteca Virtual - Literatura
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